No ar desde fevereiro, a TV Surdo trata de temas ligados a pessoas com deficiências e também do noticiário em geral, principalmente saúde e esporte; repórter da BBC Brasil acompanhou os bastidores.
"Olá, nós somos a TV Surdo, a mídia inclusiva. Hoje entramos na sua
casa para 30 minutos de muita informação". Assim, Sousa Pinto Camanguira
e Carla Xerinda recebem os telespectadores para um programa de
notícias, transmitido nas manhãs de domingo pela principal emissora de
Moçambique. Surdos, eles falam em língua de sinais moçambicana e são
acompanhados por uma narração em português, língua oficial do país.
A atração entrou no ar em fevereiro. Poucos meses depois, em setembro, a
TV Surdo já ingressava na lista dos programas mais vistos aos domingos,
ao lado de concorrentes brasileiros que caíram no gosto local, como
Programa do Gugu, Domingo Espetacular e A Hora do Faro (todos da Record
TV).
"Existe muito acesso a informação para ouvintes. Mas não para pessoas
surdas. Esse é o nosso papel. As pessoas surdas precisam ser
informadas", diz Sousa, que também é o criador e diretor da TV Surdo.
Existem mais de 60 mil pessoas surdas em Moçambique. Dois terços delas
não sabem ler nem escrever português, segundo dados do Instituto
Nacional de Estatística.
Jornalismo de Superação
As reportagens do programa abordam temas ligados a pessoas com
deficiências, mas também o noticiário em geral, principalmente saúde e
esporte. Nos bastidores, a realidade da produção é em si um exemplo de
jornalismo de superação.
A redação é formada por oito jornalistas - sete deles surdos e um
cadeirante. Além do repórter e do operador de câmera, há um terceiro
integrante fundamental na equipe que sai às ruas: o intérprete. Todo o
trabalho é feito com a intermediação dele. Na TV Surdo, são dois.
Sem apoio na escola, Sousa levou 13 anos para cursar até a 6ª série (Foto: BBC)
Há vezes ainda, durante a gravação, em que é preciso encontrar um
tradutor para o intérprete, porque o entrevistado não fala português -
em Moçambique, são faladas mais de 30 línguas. Certa vez, para produzir
uma só reportagem, foi preciso se comunicar em três línguas e fazer duas
traduções.
Nenhum dos jornalistas surdos cursou ensino superior. Na verdade, a
maioria nem concluiu o ensino regular. Com dificuldades para acompanhar
as aulas, os jornalistas da TV Surdo foram abandonando a escola - sua
formação em jornalismo vem de um curso intensivo oferecido por uma ONG.
José Fernando Mulambo, repórter cinematográfico, cursou até a segunda
classe, equivalente ao segundo ano do ensino fundamental no Brasil.
Jorge Elias Mavamba, também repórter cinematográfico, foi até a quinta
classe. Felismina Banze, editora, chegou à nona classe. Beatriz Majope,
fotógrafa, e Lizete Vieira, repórter, fizeram até a décima.
A apresentadora Carla é a única que concluiu a décima segunda classe, e agora está no segundo ano no ensino superior.
Sousa, o diretor, estudou até a sexta. Levou treze anos, de 1982 a
1995, para completar um ciclo que deveria ter levado apenas seis anos. O
jornalista precisou repetir cada ano duas vezes. "Quando terminei a
sexta classe, eu já deveria estar na universidade."
Acesso à informação
A redação é formada por oito jornalistas, sete deles surdos e um cadeirante (Foto: BBC)
Sousa ficou surdo aos 6 anos, depois de uma meningite. Assim como ele,
seis de cada dez pessoas surdas em Moçambique não nasceram surdas, mas
tiveram alguma doença que provocou a perda de audição.
De repente, assistir televisão com a família deixou de ser um
divertimento. Havia momentos em que todos riam, menos Sousa. Ele
perguntava qual era o motivo das risadas e lhe respondiam que iriam lhe
explicar depois. Mas, muitas vezes, o "depois" nunca chegava.
Isso acontecia com outros colegas surdos. Quando se encontravam,
conversavam sobre os programas de televisão para ver o que cada um tinha
entendido. Afinal, do que os parentes riam? Foi assim que surgiu a
ideia de criar a TV Surdo.
"As pessoas surdas recebem 'informações escuras'. A informação é dada,
mas a pessoa surda não pode perceber. É assim na rádio, na televisão,
nas escolas, nos hospitais", fala o criador do programa.
"A língua portuguesa é muito difícil para pessoas surdas. Por isso,
devem aprender primeiro a língua de sinais, depois o português. A TV
Surdo é uma oportunidade de se informarem pela língua de sinais", diz
Sousa.
Ele chegou à escola especial com oito anos, sem saber nada da língua de
sinais moçambicana. Foram os amigos que lhe ensinaram, pouco a pouco.
Juntos, eles iam construindo o seu novo vocabulário, começando pelo
universo do colégio e das crianças: caderno, cadeira, árvore, pássaro.
Apesar de a turma ser formada apenas por crianças surdas, as aulas não
eram em língua de sinais. "Os professores só usavam língua oral. É um
desrespeito. Dentro da sala, ficávamos calados. Se o professor nos visse
conversando em língua de sinais, dava palmatória", lembra Sousa.
Foram muitas as vezes em que ele e os amigos cabularam a aula e foram
para um parque perto da escola. "Tinha balanços, brinquedos, mas a gente
não usava. O que nós gostávamos de fazer era conversar. Sentávamos e
conversávamos todo o tempo, até a hora de ir para casa."
Era um momento precioso. Muitas vezes, nem em casa as crianças surdas
conseguiam conversar, porque suas famílias tampouco falavam língua de
sinais.
Como diretor do programa, Sousa quer levar informação para deficientes auditivos (Foto: BBC)
Hoje, já se usa língua de sinais nas escolas especiais para surdos em
Moçambique, mas a maioria das crianças com a deficiência não tem acesso a
elas.
"As crianças surdas precisam de oportunidades iguais na educação. Não
pode haver diferença. Não podem esperar ou depender da boa vontade das
pessoas. É preciso ver como as pessoas surdas aprendem e preparar
material adequado", diz o diretor da TV Surdo.
Redação do Enem
O diretor de advocacia e saúde da TV Surdo, Emerson Chiloveque
acompanhou com interesse o debate sobre o tema da redação do Enem de
2017, sobre o desafio da educação dos surdos no Brasil.
"Vi que esse tema pegou as pessoas desprevenidas. O fato de ter havido
um tema desses em um exame de admissão à universidade já é um grande
passo. Tudo que está debaixo do tapete precisa ser exposto. Mas não se
trata de um confronto. Agora é preciso aprofundar esse debate. Só falar
sobre a pessoa surda não vai resolver", opina.
Único integrante do grupo que fez ensino superior, Chiloveque é um
exemplo do caminho tortuoso dos surdos para chegar à faculdade.
Ele queria ir à universidade. Não passou no exame de admissão em
universidades moçambicanas, então buscou bolsas de estudo fora do país.
Concorreu e foi aceito na Rússia, um país parceiro de Moçambique desde a
luta pela independência de Portugal. A necessidade de falar em russo,
idioma que assustaria muita gente, não o deteve. Aprendeu a ler em russo
e contou com o apoio dos professores locais.
Chiloveque estudou Relações Internacionais e História na Universidade Pedagógica de Tula. Na Rússia. Em russo.
Nenhum dos jornalistas surdos da equipe do programa cursou ensino superior (Foto: BBC)
Para conseguir concluir, criou seu próprio método de estudo: emprestava
cadernos de colegas e copiava as anotações. Em casa e na biblioteca,
estudava sozinho.
"A minha história é diferente porque eu não nasci surdo. A maioria dos
surdos em Moçambique tem uma educação muito pobre, tem dificuldade de
leitura e escrita em português. A maioria não consegue chegar à décima
classe. Há uma desistência muito grande. Temos que parar com esse
ciclo", diz. "Pode haver outro Emerson a espera de oportunidades."
Além da produção de reportagens, a TV Surdo também realiza palestras de
saúde. Um dos assuntos é o HIV, a principal causa de morte de adultos
em Moçambique. Nos últimos meses, Emerson Chiloveque visitou escolas
para falar sobre o tema com jovens surdos. E viu que muitos não tinham
informação a respeito, ao contrário dos jovens ouvintes.
A dificuldade de comunicação com os surdos leva à falta de informação,
diz ele. "Temos mostrado a necessidade de existir uma comunicação
inclusiva. Queremos transmitir informação de forma inclusiva."
Língua de sinais
Tive a oportunidade de conviver na redação da TV Surdo em outubro, como
parte de uma formação para jornalistas moçambicanos. Ali, eu era uma
das únicas pessoas que não falava a língua de sinais. Quem não podia se
comunicar era eu, não eles.
"Vamos fazer um exercício de substituição", propôs Sousa. "Se há 900
mil pessoas ouvintes e 100 mil pessoas surdas, as pessoas surdas são a
minoria. Mas se há 900 mil pessoas surdas e 100 mil pessoas ouvintes, os
ouvintes são a minoria. Então, quem teria dificuldade na comunicação
seriam os ouvintes. Se existissem muitos surdos, os ouvintes iriam
querer aprender língua de sinais para não se sentirem excluídos."
Muito acolhedora, a equipe da TV Surdo se esforçou para me incluir. Com
paciência, foi me ensinando novos sinais, embora eu não tenha
conseguido reter mais que vinte deles. É como aprender uma língua nova.
Se era difícil para mim aprender a língua de sinais, eu não podia deixar
de pensar como devia ter sido (e como ainda deve ser) difícil para eles
aprenderem português.
Eu tinha muita dificuldade em compreender uma conversa sozinha. Era
dependente da ajuda do intérprete. Fernando, repórter cinematográfico,
foi o que mais insistiu comigo. Tentava me fazer entender o que ele
dizia de diversas formas e, quando eu tentava buscar o socorro do
intérprete, me estimulava a tentarmos de novo. A sensação era de
frustração por eu não conseguir corresponder à dedicação da TV Surdo em
me ensinar a nova língua.
"Quantas pessoas surdas você conhece no Brasil?", foi a primeira
pergunta que Fernando me fez. Eu fiquei desconcertada. Não conheço
nenhuma. "Por que não conhece?", Fernando replicou, com a surpresa
colada no rosto. Por que eu não conheço? Essa pergunta me acompanha até
hoje. Segundo o IBGE, são quase 350 mil surdos no Brasil.
A experiência com a TV Surdo me ensinou muito sobre dedicação,
motivação, superação, inclusão. E me ensinou sobre minha própria
dificuldade de comunicação com pessoas surdas. A limitação não é só
deles, é de todos nós.
*Amanda Rossi é jornalista da BBC Brasil. Entre setembro e outubro, deu
aulas de jornalismo de dados para jornalistas moçambicanos, da TV Surdo
inclusive.
A jornalista da BBC Brasil (de pé, ao fundo, com blusa azul) visitou Moçambique e conheceu a TV Surdo (Foto: BBC)
Fonte: https://g1.globo.com/educacao/noticia/como-um-grupo-de-jornalistas-surdos-conseguiu-lancar-um-dos-programas-mais-assistidos-em-mocambique.ghtml
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ResponderExcluirDurante toda a notícia pode-se perceber a importância que tem o interprete de libras, o papel que ele exerce ao traduzir aquilo que pelo outro ainda não é compreendido e até mesmo gerar a curiosidade destes pela aquisição futura da língua. É encantador ver a forma como todos os envolvidos se organizaram para apresentarem para os telespectadores esse tipo de informação, tendo ainda uma equipe formada por pessoas com deficiências, mostrando assim que ter uma deficiência não significa o fim e sim o começo de muitas vitórias e conquistas.
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