Pais surdos criam página para mostrar desenvolvimento de filha de 2 anos, também surda
'Sempre fomos e ainda somos invisíveis da sociedade', afirmou Francielle Cantarelli, autora da página 'O diário de Fiorella'
POR LOUISE
QUEIROGA
07/11/2017 10:40 / atualizado 07/11/2017
10:55

Pais
de Fiorella, Fabiano e Francielle, criaram uma página no Facebook para divulgar
formas de estimular o aprendizado de crianças surdas -
Facebook/Reprodução
RIO — Quando gaúcha Fiorella
Cantarelli, de 2 anos, foi diagnosticada como surda, aos 4 meses de vida, seus
pais, que também são surdos, começaram a pesquisar sobre formas de ajudar no
aprendizado e desenvolvimento de outras crianças. Para isso, criaram a página
no Facebook "O diário de Fiorella", voltado para pais surdos com
filhos surdos. Com o tempo, a mãe, Francielle Cantarelli, de 29 anos, disse ter
se deparado com muitas famílias ouvintes com dúvidas sobre os estímulos
indicados, assim como a inclusão escolar. Foi assim que ela e o marido, Fabiano
Rosa, decidiram ampliar o objetivo da página, passando a publicar um conteúdo
acessível para todos.
— Percebemos que apenas 5% dos pais
surdos têm filhos também surdos no país. Como não é algo comum de encontrar,
resolvemos iniciar a página para abrir a discussão sobre isso.
No entanto, Francielle contou que o
desenvolvimento da filha não é diferente das crianças ouvintes.
— A única diferença é que Libras é
visual-espacial. Foi necessário, então, expandir a página para que todas as
famílias pudessem acessá-la e perceberem que bebês e crianças surdas podem se
comunicar em Libras, como as outras que se comunicam em português — explicou.
A língua brasileira de sinais (Libras)
é reconhecida em lei como a segunda oficial do país e, para a mãe de Fiorella,
"as famílias precisam se adaptar e adotar a ideia sobre ela".
— Muitas pessoas acham que intérpretes
servem para surdos de todas as idades, mas para as crianças surdas não, porque
são pequenas para conseguir acompanhar e também ainda estão aprendendo Libras —
frisou.
Na página "O diário de
Fiorella", que contabiliza mais de 77 mil curtidas, os pais mostram vídeos
de conversas entre eles, como forma de exemplificar que o aprendizado da Libras
pode ser direcionado a crianças pequenas.
— Quando eu e Fabiano confirmamos a
surdez da Fiorella, em abril de 2015, saímos do consultório e pulamos de
alergia. Mas pulamos de alergia porque ela é surda como nós? Não, nós ficamos
aliviados porque tivemos certeza. Antes, tínhamos desconfianças, não tínhamos
um diagnóstico pronto. Quando o exame de Bera confirmou a surdez da Fiorella,
vimos muitos artigos e pesquisas sobre estimulação e aquisição de língua de
sinais para crianças surdas que começam a entrar em contato com a Libras
tardiamente, por volta dos 4 anos de idade, mas esse não era nosso objetivo. A
Fiorella nasceu com a Libras, a primeira língua dela — salientou a mãe da
menina.
Quando Francielle soube que o tema da
redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) foi sobre os “desafios para a
formação educacional dos surdos”, contou ter ficado muito emocionada e, a
princípio, "pasma e chocada". Ela estava num churrasco com a família,
no último domingo, e aproveitou o momento para comemorar a escolha do tema que,
para ela, foi uma conquista para a comunidade surda.
— Estava no churrasco com a minha
família, recebi muitas mensagens sobre o tema da redação. Eu não acreditava,
então resolvi pesquisar na internet e era mesmo. Fiquei pasma e chocada!
Demorei a cair na realidade, pulei de alergia, aproveitei para comemorar no
churrasco! — celebrou a mãe de Fiorella. — Neste ano, a comunidade surda teve
duas conquistas: o Enem em Libras e o tema da redação — completou Francielle.

Francielle
quis que a filha começasse a aprender Libras o mais cedo possível -
Facebook/Reprodução
Apesar de ter visto o tema como
desafiador para quem fez a prova, ela acredito que "eles vão abrir a mente
para entender sobre mundo dos surdos e ver que nós existimos". Entre os
pontos mais necessários para a inclusão dos surdos numa escola regular, com base
na experiência dela, estão a adaptação, por meio do oferecimento de
"professores bilíngues, intérpretes tradutores de Libras, materiais e
didáticas adaptadas, principalmente, assuntos que professores e alunos devem
discutir, como preconceito, integração, comunicação, respeito e
desigualdade".
— Sempre fomos e ainda somos invisíveis
da sociedade. A luta nunca vai parar, sempre lutamos pelos nossos direitos,
nossa língua, nossa educação, entre outros — afirmou Francielle, destacando que
o Instituto Nacional de Educação de Surdos (Ines) completa 160 anos neste ano.
— É a primeira instituição de educação dos surdos do Brasil, muito importante
para a comunidade surda — acrescentou.
Francielle relatou que estudou numa
escola regular, mas não teve boa experiência devido, principalmente, ao
preconceito.
— Não tinham materiais e didáticas
adaptados para alunos surdos, por isso, eu queria que Fiorella tivesse uma
educação diferente da que tive. Decidi colocá-la na escola dos surdos na minha
cidade. Ela foi matriculada aos 6 meses de idade. A escola tem um programa de
estimulação precoce, duas professoras (uma surda e uma ouvinte). Até hoje ainda
está frequentando o programa, que dura duas horas por dia. Nosso objetivo foi
integrá-la com outras crianças surdas para que ela pudesse mergulhar no mundo
dela (o mundo dos surdos). A escola promove teatro surdo, literatura surda,
contos em Libras, entre outras atividades — afirmou.

Fiorella,
de 2 anos, está em duas escolas, uma para surdos, e uma regular -
Facebook/Reprodução
No entanto, Fiorella também estuda pelo
mesmo período de duas horas por dia numa escola regular que passou a oferecer
uma professora bilíngue e um assistente também bilíngue depois que a mãe dela
conversou a diretora, explicando a importância e necessidade da adaptação para
os surdos. A mãe dela explicou que o objetivo foi promover uma interação entre
os "dois mundos".
— Ainda não decidi qual dessas escolas
ela vai ingressar quando completar 5 anos de idade. Mas nesta escola regular,
Fiorella conseguiu uma professor bilíngue, um assistente bilíngue, materiais e
didáticas adaptados e visuais. Percebemos também que ela se adaptou bem com
crianças ouvintes — contou.
Fonte: O Globo
A notícia acima expõe vários fatores importantes, nos quais as pessoas com deficiência enfrente dia-a-dia. O relato dos pais da pequena Fiorella, expressa exaustivamente as dificuldades ainda existentes na sociedade. A notícia gira em torno dos cuidados prévios que os pais da criança tomaram para que ela cresça absorvendo o conhecimento prático em LIBRAS, como citado, a segunda língua oficial do Brasil. Podemos inferir que esses cuidados já nos mostram como o processo de desenvolvimento de Fiorella não será tardio, o que também acaba por promover o seu processo inclusivo social mais rápido. Destaca-se também o contentamento da mãe ao citar o tema da ultima prova do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), que visa avaliar os conhecimentos obtidos até o término do Ensino Médio. Ele é usado como parte do processo seletivo para o ingresso de candidatos nas universidades públicas e privadas. O tema em questão buscou, de certo modo, abordar o conhecimento da nossa sociedade sobre a educação da população surda. Uma vez que esse tema requer uma conhecimento prévio para que ele seja bem elaborado.
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