quinta-feira, 24 de maio de 2018

Tema da redação do Enem expõe a ausência de políticas de inclusão no país

           Educadores e pessoas com deficiência analisam repercussão da prova

 

O tema levantou o debate sobre diversidade e inclusão, e causou espanto não só nos alunos que realizaram a prova, mas em professores que admitiram falta de preparo.

"Infelizmente não fomos e não somos preparados. Eu já tive um aluno com Síndrome de Down. Era um querido, mas eu não sabia como ensiná-lo. Sinto que não fiz o bastante. Não basta ler sobre o assunto, precisamos de mais. Que os estudiosos da educação nos ajudem a melhorar nisso", escreveu a professora da Escola Estadual Francisco Whitacker, em Anhumas, São Paulo, Angela Maria Messias, em sua página no Facebook.

Para a fundadora do Núcleo de Acessibilidade e Inclusão da UFF, atual Divisão de Acessibilidade e Inclusão, Sensibiliza UFF, Lucília Machado, que também é jornalista e cadeirante, abordar temas como esse em uma prova que atinge quase 7 milhões de brasileiros é uma vitória para aqueles que lutam por diversidade e inclusão.

“O MEC forçou um debate sobre um tema que nunca foi tocado. Ele vai ser levado para as salas de aula. Hoje é o assunto em todo lugar, em todas as casas de família, escolas e universidades. A mudança que os ativistas da inclusão tanto queriam começou, porque hoje está na boca dos brasileiros”, disse.

A prova

O Enem vem, nos últimos anos, apontando para temas ligados a questões sociais e, sobretudo, para discutir grupos que são totalmente excluídos da sociedade, inclusive do sistema de ensino. O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), responsável pelo exame, procura a cada ano se especializar na oferta de recursos para que pessoas com deficiência possam fazer a prova.

Para o professor Rafael Dias Silva, que se dedica ao projeto Libras na Ciência, as reações negativas sobre a prova de redação do Enem refletem a invisibilidade da comunidade surda, mais ainda a insensibilidade de quem achou o tema difícil e questionou a validade de abordá-lo no Exame.

“Os alunos do ensino médio público e privado vivenciam isso no lado bom e ruim. Bom quando as escolas elaboram estratégias educacionais de maneira plena, e ruim quando eles são invisíveis. Quem vai ter dificuldade é quem nunca teve contato com pessoas com deficiência, e nós sabemos que existem escolas que não trabalham com esse aluno”, disse o pesquisador e especialista em Educação de Surdos, acrescentando: “Mais uma vez isso pode ser visto como algo positivo, porque direciona a discussão para haver mais inclusão desses alunos nas escolas. As leis existem, falta colocar em prática”.

Neste ano, pela primeira vez, o Enem foi disponibilizado com o recurso da vídeo prova traduzida em Libras. O Inep também oferece recursos como prova em Braille, tradutor - intérprete de Libras, prova super ampliada, guia-intérprete para pessoa com surdocegueira, leitura labial e mobiliário acessível. Ainda assim, todo ano surgem novos relatos de problemas no acesso ao exame. Rafael Dias disse que muitos de seus alunos elogiaram o novo modelo de videoprova, e que ajustes são sempre necessários, “mas é um começo maravilhoso”.

“A gente trabalha muito ainda com a necessidade do próprio sistema se aperfeiçoar. Os recursos não bastam apenas para fazer a prova, eles têm que estar disponíveis ao longo do processo de ensino”, acrescentou Edicleia Mascar.

Lei e inclusão

Mesmo com a Lei de Libras, de 2005, que classificou esse idioma como língua oficial da comunidade surda, ainda existe uma defasagem majoritária na oferta do ensino em escolas. Não existem intérpretes suficientes disponíveis no ambiente acadêmico, embora os concursos públicos tenham orientado para essa função. Não existem, nos hospitais ou postos de saúde, profissionais aptos para receber essa comunidade, que é estimada em quase 10 milhões de pessoas em todo o Brasil. Há quem ainda acredite que Libras não é língua, é mímica. Além dos diversos projetos de lei engavetados, que abordam, justamente, a questão do ensino desde as primeiras etapas do fundamental

Fonte: Jornal do Brasil - http://www.jb.com.br/pais/noticias/2017/11/07/tema-da-redacao-do-enem-expoe-a-ausencia-de-politicas-de-inclusao-no-pais/

 

 

Um comentário:

  1. A notícia é de fundamental importância por nos mostrar um assunto recente, em que muitas pessoas tiveram a oportunidade de dissertar a respeito. Essa questão levou diversos debates por ainda ser algo desconhecido por muitos.

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